Foto com diversos livros dispostos em pé e na horizontal com a bandeira da Turquia entre eles.

Procura-se alguém que fale turco

Um desafio: traduzir literatura do turco para o português pela primeira vez no Brasil e como aprendemos com isso

Por Eliana Sá*

Um maior interesse pela literatura turca no Brasil apareceu quando o romancista Orhan Pamuk recebeu o prêmio Nobel em 2006. Até essa época, havia poucas trocas comerciais entre os dois países. Culturais, então, quase nada.

Em 2009, Lula, tornou-se o primeiro presidente brasileiro a visitar a Turquia; antes dele, o único chefe de estado brasileiro que o fizera fora Pedro II, em 1875. Pouco conhecíamos do país que formara o grande império Otomano.

Porém, há alguns anos, começamos a ter voos diretos de Istambul a São Paulo e o fluxo turístico entre os dois países aumentou bastante. Embora o número de turcos vivendo no Brasil seja bem pequeno, apenas cerca de 300 pessoas.

Em 2010, a Sá Editora recebeu um apoio do Ministério da Cultura e do Turismo da Turquia para traduzir romances turcos para o português. Após contato com uma agência literária turca na Feira de Frankfurt, abraçamos a tarefa e investimos em cinco livros de ficção que fazem parte de nosso catálogo.

A tarefa de descobrir um tradutor de turco não foi nada fácil. Finalmente, encontramos um professor de letras da USP, casado com uma turca, que se habilitou a traduzir o primeiro dos romances, As preces são imutáveis, de Tuna Kiremitçi.

Foi então que descobrimos que éramos os primeiros a traduzir direto do turco para o português, porque até os romances de Pamuk, publicados pela Companhia das Letras, eram traduzidos via inglês.

Em 2011, com mais um romance traduzido – dessa vez via francês -, fomos convidados a participar de um Simpósio de Tradução de Literatura Turca, na Universidade do Bósforo.

Impressionante a quantidade de países que compareceram, desde o Japão, Coréia, Alemanha, França, Estados Unidos, Bulgária, o que nos mostrou a importância política e cultural da Turquia entre Oriente e Ocidente.

Também admirável o esforço do governo naquela época de sustentar um esforço para estender seus horizontes culturais à comunidade de leitores mundiais oferecendo bolsa em euros e suporte para a tradução.

Eu, como editora, compareci e falei para uma platéia curiosa sobre nossa vida cultural. Conheci Istambul, a velha Constantinopla, e amei a cidade de imediato, tantos tesouros e antiguidades impressionantes.

Continuamos com as traduções e publicações, mas, infelizmente, não tivemos um bom resultado em vendas nos lançamentos. Sustentar uma campanha contínua de marketing exige esforço também continuado. E a Turquia mergulhou em um caos político que não nos ajudou.

Na semana em que passei em Istambul, conheci autores que me receberam com a maior simpatia: Oya Baydar, uma revolucionária que já foi presa e viveu muitos anos exilada na Alemanha, autora de Palavra perdida , um texto sobre a escalada da violência no mundo, focado nos curdos, uma minoria em seu país; Gul Irepoglu, uma historiadora, escreveu sobre os haréns em A concubina; Reha Çamuruglu, de Um golpe de sorte, ficcionaliza a real tentativa de assassinato do último sultão; Tuna Kiremitçi, músico e poeta, com seu comovente As preces são imutáveis, a saga de uma mulher que conheceu e perdeu o grande amor de sua vida enquanto se encontrava asilada na Turquia, durante a II Guerra Mundial.

“Demos nossa contribuição e aprendemos muito com nossa tentativa de introdução de outra cultura, quase desconhecida, em um mercado tão pobre como o nosso.

Existem alguns desafios que conhecemos: como investir mais em estudos de tradução no Brasil. Como solução para o turco, talvez pudéssemos trabalhar em cooperação com tradutores portugueses, pois em Portugal temos mais gente estudando turco; além de fazer parcerias com universidades e fundações em ambos os países.

Conseguir uma gama mais ampla de leitores da literatura turca no Brasil é obter um melhor reconhecimento da cultura turca. Para atingir este objetivo, acredito que uma das chaves é promover a cultura turca não só através dos livros, mas também do cinema, da culinária, da história, da música e das danças, criando muitos pontos de acesso para os livros e para o próprio país. Acredito que a literatura pode ajudar a construir uma ponte entre o Brasil e a Turquia; que a literatura pode ajudar a criar pontes entre os seres humanos.”


*Eliana Sá – Editora e fundadora da Sá Editora

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